quinta-feira, 23 de novembro de 2017




Hoje todas as sílabas da noite são o teu nome. Todas as lâmpadas
 acesas revelam o teu corpo. Todos os silêncios são um telefone que
 não toca. E a boca nos teus cabelos, e a mão delineando o rosto --- a 
 língua que acende a pálpebra, a água da pele diluindo as horas. O 
 calor da respiração ateando o lume da ausência. As ruas vazias. 






 Al Berto
(Foto de Cristina Coral)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

sei o papel de cor




Estou aqui, 
 agitando os baldes que a chuva 
 encheu durante a madrugada
 para evitar que o silêncio faça mais vítimas. 
 Fui colocar essa peruca de pardais e vim
 a voar até aqui acima, 
 e agora não sei como inventar as escadas para descer. 
 Dizes que é apenas uma questão de tempo,
 que só foste renovar o contrato para não ficares assim com
 o pé no vazio. 

 Já nem reparas, 
 mas estou aqui como um animal pré-histórico 
 a ficar enternecido com a bailarina
 da tua caixa musical.
 Aguardo, ainda, como qualquer vulcão lunar
 o fim da era glaciar. 

 Passo a mão pelos cabelos molhados,
 chove,
 outra vez.
 Há ecos de corpos rasgados 
na gargalhada dos palhaços
 e as hienas começam a ficar impacientes: 
 é tarde mas sobretudo urgente.

 Deixa-me pôr esse vestido 
 com corte jovem demais para o meu corpo em queda.
 É a minha vez. 
 Sei o papel de cor. 
 Mas não chego para uma história. 







 Golgona Anghel

quarta-feira, 15 de novembro de 2017




Da alma só sei o que sabe o corpo:
 onde a esperança e a graça
 aspiram ao ardor
 da chama é a morada do homem. 
 Vê como ardem as maçãs
 na frágil luz de Inverno. 
 Uma casa devia ser 
 assim: brilhar ao crepúsculo
 sem usura nem vileza
 com as maçãs por companhia. 
 Assim: limpa, madura. 






 Eugénio de Andrade