terça-feira, 28 de março de 2017

esperar




(...) 
tenho a certeza de que parto para sempre 
não haverá regresso nenhum
 creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe 
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
 num país com sabor a tamarindos rodeados de mar 
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
 a paixão nascesse durante o sono
 um país um pouco maior que este quarto
 fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada
 poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias
 inventaria mesmo desculpas plausíveis
 greves dos correios inexistentes terríveis epidemias
 catástrofes
 e na espera duma carta acabaria por me embebedar
 beber muito e esperar 
esperar
 digo tudo isto mas já não te amo
 (…)







 Al Berto

segunda-feira, 27 de março de 2017




Perdi o caminho
 e erro ao acaso. 
 Quero o que não tenho, 
 e tenho o que não quero







 Rabindranath Tagore
 (Foto de Anka Zhuravleva)

sábado, 25 de março de 2017

o meu amor é um íman na porta do frigorífico




Senta-te e limpa os lábios. 
Acende cada uma das lâmpadas
 Dos meus olhos, 
 Passa a tua mão, a mais nova, 
 Sobre a minha testa. 

 Deixa-me com a noite colada às têmporas, 
 Crisálidas saindo pela boca 
 Como um deus egípcio; 
Quando a manhã chegar 
 Mil anos de terra e esquecimento
 Tornar-me-ão amante por superstição, 
 Aquele que por medo evocarás
 Quando passeares o cão no jardim. 

 Antes de partires deixa o mapa, 
 Em rima cruzada, suspenso 
 Na porta do frigorífico.
 O amor não é um íman. 








Nunes da Rocha

sexta-feira, 24 de março de 2017

frio




ainda é cedo para saber até onde mentiram os espelhos. o único consolo para a dor é saber que o desejo pode ser inesgotável. passo os dias absorvido com trabalhos caseiros, evito pensar em ti. cavo, planto, enxerto, podo, varro, limpo, cozinho, arrumo, lavo. é cada vez mais importante não me lembrar de mim. tem soprado um vento glacial. fortíssimo, o que me desequilibra imenso. enfio um gorro de lã até às orelhas, mas de pouco serve, o vento fustiga-me à velocidade do sangue. tremo o dia todo,como se tivesse alguma febre maligna. há três dias que não como e vivo, enroscado, junto à lareira. durmo no chão, mantenho o fogo aceso noite e dia.







Al Berto