sábado, 28 de novembro de 2009

Qualquer coisa

"...Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer..."




Mia Couto

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Que é isto ?

Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?

Herberto Helder

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Toca-me


Toca-me, conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo, soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido, dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno
Basta-me que o teu olhar me encontre


José Rui Teixeira

Novembro

sábado, 21 de novembro de 2009

Solidão


Cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só,
muito só,
não tenho a quem a deixar
 
Al Berto

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

E a noite a pedir musica...

O amor é uma questão de oportunidade:

Não adianta nada conhecer a pessoa certa antes ou depois do momento certo


2046, de Wong Kar-Wai.

Dias tristes


Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.
Filipa leal

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Voar


Na cartilha maternal das borboletas aprendeste
a voar, e ali escreveste, na ardósia do vento,
os primeiros poemas.

Albano Martins

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

Não me lembro


Afirmas que brigamos. Que foi grave.

Que o que dissemos já não tem perdão.

Que vais deixar aí a tua chave

E vais à cave içar o teu malão.

Mas como destrinçar os nossos bens?

Que livro? Que lembranças? Que papel?

Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens

Não te devolvo – é minha – a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,

Não sei se o queres levar, já está no fio.

E o teu casaco roto, aquele vermelho

Que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?

E o sol que dá no quarto de manhã?

É meu o teu cachorro que eu tratava?

É teu o meu canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?

Este beijo era meu? Ou já não era?

E o que faço das praias que não vimos?

Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?

E a falésia das tardes de Novembro?

E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?

De quem é esta briga? Não me lembro.



ROSA LOBATO DE FARIA

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A intenção de mim

Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra
meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me
Depois, não
me ensines a estrada.
A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.


Mia Couto

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Noites assim


Situando-te no meio
desta frase
que equilibra morna
de
saliva
distingo a cor do verão
entre este invernoque é o
teu sabor
na minha língua
Maria Teresa Horta


Palavras


A certa altura da vida começamos a aprender
a esperar o tempo. A certa altura da vida o que
nos mata não são as horas. O que nos mata são
as palavras e a ausência de palavras.




Baptista Bastos

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma parede


Inventa uma parede
onde possas encostar-me o corpo
pressionado pelo teu.
Uma parede de textura suave.
Uma parede única,
onde nos encontremos.
Inventa uma parede para o amor.

Silvia Chueire

sábado, 7 de novembro de 2009


, estes são os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo
como cortes profundos
que nunca vão sarar;


Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Vem


Nesta brisa quase suave
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem

Filipa Leal,

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Respiro o teu corpo


Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.


Eugénio de Andrade

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Como o direi?


Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?

Como o direi?

Como o calarei?


Albano Martins

Limpar o coração

Todo dia, quando acordo,
vou correndo tirar poeira da palavra amor


Clarice Lispector