terça-feira, 22 de agosto de 2017

pediste-me o livro da emoção




Melhor fora que viesses sem saber
 de mim o que quer que fosse. 
Isso é que seria recomeçar a valer
 e não apenas com o que te trouxe.
 Para que isto não ficasse viciado
 à partida, protegia metade da alma. 
A metade que, quando estou deitado,
 fica para baixo e me acalma.
 Que corpo afectivo e voraz
 me deixa assim contente e vivo? 
O corpo que sempre me traz 
razão activa ao meu ser passivo.
 Pediste-me o livro da emoção
 e nele não leste nenhum compromisso. 
Discutimos antes a decoração,
 um de nós tem de ceder nisso. 






 Helder Moura Pereira
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

o tempo em que festejavam o dia dos meus anos




Não se aprende grande coisa com a idade. 
Talvez a ser mais simples,
 a escrever com menos adjectivos.
 Demoro-me a escutar um rumor.
 Pode ser o prelúdio tímido ainda
 do cantar de um pássaro, uma gota 
de água na torneira mal fechada, 
a anunciação do tão amado
 aroma dos primeiros lilazes. 
Seja o que for, é o que me retém 
aqui, me sustenta, impede de ser 
uma qualquer vibração da cal, 
simples acorde solar, um nó
 de luz negra prestes a explodir. 






 Eugénio de Andrade
(Foto de Natalia Drepina)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017




Chegou o intervalo e a história não acaba.
 Acabou o poema e a vida ainda não chega. 






 Armando Silva Carvalho

terça-feira, 15 de agosto de 2017




Quando vivemos tanto que temos de pagar excesso
 há algo no amor como uma luz suicida, 
é talvez só isso, 
havendo amores que duram algo menos que um beijo, 
e beijos que duram algo mais que uma vida.






 Luis Rosales

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

abraços desfeitos




É simples a separação. 
Adeus. 
Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar contas um ao outro. 
Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não desfazer o abraço. 
Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da remembrança. 
Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara dos cabelos. 
Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na caixa do correio. Sobra o telefone. 
Tensão - telefone. Experimentada. Sofrida. 
Tensão - telefone. Possibilidade de voz não póstuma. 
No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos. 
Sobra o telefone. Mudo. 
Retininte? 
Sobrarão as cartas. Sobra a espera. 
Na teia lenta da remembrança, retomo-te em memória recente: 
 na praia de ternura onde nos enrolámos e desenrolámos 
 desesperados de separação. 
Sobra a separação. 






Alexandre o'Neill

terça-feira, 8 de agosto de 2017

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

simples mentiras






( continuamos a fingir que estamos de férias, 
em lugares tão azuis que nos deixam cegos os olhos
 para que não possam ver a lentidão com que este mês 
teima sempre em passar)






sábado, 5 de agosto de 2017




Estou no meu quarto. Deitada na minha cama. A luz está acesa. Oiço música. Penso em ti mas não é em ti. É um tu abstracto 
porque a tua ausência é uma lesão incurável que se imaterializa com o tempo. Por fim adormeço. 






 Ana Hatherly

sexta-feira, 4 de agosto de 2017





há-de uma grande estrela cair no meu colo







Else Lasker-Schüler 
(Foto de Laura Makabresku)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017




Concentro os olhos no mais precário
 lugar do teu corpo: morre-se 
 em Agosto com as aves: 
 de solidão. 

 Neste instante sou imortal: 
 tenho os teus braços em redor
 do corpo todo: 
 as areias escaldam: é meio-dia. 

 Do teu peito avista-se o mar
 caindo a prumo:
 morre-se em Agosto na tua boca: 
 com as aves







 Eugénio de Andrade

terça-feira, 1 de agosto de 2017

agosto





dizes que vais de ferias 
para um lugar paradisíaco
 em amorosa companhia 

 (são assim as mais simples mentiras)






sábado, 29 de julho de 2017

é sempre a mesma voz que não perdoa




Eu vi o sobressalto. 
Nesse bosque de lâminas e luvas
 tocaste cada coisa como
 um grito. 

 E amaste a minha boca
 como quem corta
 os pulsos ao silêncio. 

 Se o vento te derrama 
entre folhas e cinza 
é sempre a mesma voz que não perdoa

 a mesma lei

 o mesmo labirinto 






 Armando da Silva Carvalho

sexta-feira, 28 de julho de 2017

o amor está de volta





Se as tuas noites não têm mais fim 
 Se um desalmado te faz chorar 
 Deixa cair um lenço 
 Que eu te alcanço 
 Em qualquer lugar






quarta-feira, 26 de julho de 2017

dá-me para a melancolia




Só mais um dia, 
um dia luminoso e barulhento
 por mim a dentro, 
um dia bastaria, 
em prosa que fosse. 

 Mas  dá-me para a melancolia
 para a limpeza, para a harmonia,
 impacientam-me as migalhas 
de pão na mesa, as falhas
 da pintura do tecto,
 as vozes das visitas, despropositadas, 
sinto-me sujo como um objecto, 
desapegado, desarrumado. 

 Trocaria bem esse dia
 por um pouco de arrumação
 - no quarto e no coração. 






 Manuel António Pina

segunda-feira, 24 de julho de 2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

certos amores




Tenho saudades, dizias.
 Saudades do que foi, do que está a ser, do que será, sobretudo do que não será






 Manuel Alegre  (A Terceira Rosa)

quarta-feira, 19 de julho de 2017




Foto de Sónia Silva



Não entendo nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida. 
Contudo, há horas, as horas perdidas - e só essas - que queria tornar a viver e a perder






 Raul Brandão

terça-feira, 18 de julho de 2017




É já tempo de não esperar ninguém. 
Passa o amor, fugaz e silencioso 
como ao longe um comboio nocturno
 Não resta ninguém, é hora 
de voltar ao desolado reino do absurdo, 
a sentir culpa, ao vulgar medo
 de perder o que já estava perdido.
 À inútil e sórdida moral.
 É já hora de dar por vencido no trabalho,
 a sós, outro Inverno. 
Quantos faltam ainda, e que sentido
 tem esta vida onde te procurei, 
se chegou já a hora tão temida
 de comprovar que nunca exististe? 






 Joan Margarit (tradução de Vasco Gato)
 (Foto de Katia Chausheva)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

desfolhando relâmpagos sobre mim




A magnólia,
 o som que se desenvolve nela
 quando pronunciada, 
é um exaltado aroma
 Perdido na tempestade






 Luiza Neto Jorge

domingo, 16 de julho de 2017

vazio de sinais




Estava tudo depurado de vida,
 isento, 
 vazio de sinais, e depois disse para comigo: 
 vou começar a escrever
 para me curar da mentira de um amor que acaba. 






 Marguerite Duras

terça-feira, 11 de julho de 2017

o que eu quero




Não tenho paciência para ouvir os outros, não tenho paciência para viver,
 não tenho paciência para morrer, estou aqui, parada, num desequilíbrio interminável, 
nunca mais acabo de cair, irrito-me se me falam, sofro se me não dizem nada,
 odeio o gesto caridoso: a mão de alguém nos meus cabelos, 
o que eu quero é uma voz que me queira, 
 um momento de descanso nessa voz. 






 Rui Nunes
 (Foto de Katia Chausheva)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

as cartas marcadas




Definitivamente, é o meu Outono, 
um tempo de alianças impossíveis,
 a idade vermelha de todos os perigos 
para homens maduros e miúdas solitárias. 
A idade do adultério e do olvido
 sem nenhuma esperança, a idade fria, 
a partida final contra nós mesmos.
 Mantenho-me à mesa, sem esperar a sorte, 
neste jogo já não entra o azar. 
É o tempo de fazer uma paciência 
com as cartas marcadas da vida. 







Joan Margarit

segunda-feira, 3 de julho de 2017

quero saber se ficarás comigo no meio do incêndio




 Quero saber o que te sustenta a partir de dentro, quando tudo o mais se desmorona. 
Quero saber se consegues ficar sozinho contigo mesmo e se, realmente, 
gostas da companhia que tens nos momentos vazios. 







Jean Houston
 (Foto de Anka Zuravleva)

sábado, 1 de julho de 2017

nada






la muerte se muere de risa 
pero la vida se muere de llanto pero la muerte pero la vida
 pero nada nada nada 






 Alejandra Pizarnik
 (Foto de Anka Zuravleva)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Por vezes não sabemos o que fazer




por vezes não sabemos o que fazer

 — hoje apenas resta esta frase
 a sinalizar em ferida uma falha 
— sem esperança dela irradiar
 cornucópia luminosa braseiro
 ficamos imobilizados no mundo 
sem contorno ou profundidade
 sem mão ou palavra para erguer
 alguma coisa se afasta de nós
 irremediavelmente. 







 Carlos Alberto Machado

quarta-feira, 28 de junho de 2017

prefácio




Ao nível do mar
 como o nome da flor do vinho
 murmurado entre relógios de carvão 
 escrito devagar na cal do silêncio
 como o lençol de púrpura
 no peito dos amantes 
 de costas para a morte 
 ao nível do mar 
 como um cardume de palavras cintilantes
 no horizonte de cinza e de pavor
 como um cavalo branco toda a noite
 de estrela para estrela
 ao nível do mar
 como a flor que se abre na boca dos suicidas
 um homem 
 ferido de morte 
 vai falar 






 António José Forte

terça-feira, 27 de junho de 2017

morangos silvestres




Cóleos begónias avencas 
 aprendo o nome das plantas 
 e de manhã como fruta
 (não era o que tu dizias?) 
 antes de tomar café.

 Mas a seguir ao café 
 sobra-me um dia comprido. 
 Não sei que fazer sem ti
(não há morangos silvestres) 

 não sei que fazer comigo






 Ivette Centeno
 (Foto de Laura Makabresku)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

por ter ficado




nada mudou jamais - e o meu passado é 
ainda o nosso passado; e o rosto que tinha antes
 de me deixares é o que o espelho me devolve no
 presente 







 Maria do Rosário Pedreira

domingo, 25 de junho de 2017

destroços




Esqueci­-me do teu nome.
 Um nome que se esqueceu é a falta de um nome?
 Um nome é a falta de todos os nomes. 
 Mas um nome que falta, o que é? 








 Rui Nunes

sexta-feira, 23 de junho de 2017

quarta-feira, 21 de junho de 2017

esse nome




Encontrei-o no bolso do primeiro 
casaco deste verão. Frio. Toquei-lhe
 o corpo das letras devagar como se
 fosse mão que me aguardasse. Frio. 

 Trouxe-o aos olhos com desejos de
 lembrar-me que tarde e de que verão; 
li com os lábios esse nome que talvez 

 me livrasse da doença, tentei escutá-lo
 numa voz que me estendesse os dedos. 
Frio, frio. 







 Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, 20 de junho de 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

labirinto




Eu vi o sobressalto. 
Nesse bosque de lâminas e luvas
 tocaste cada coisa como
 um grito.

 E amaste a minha boca
 como quem corta
 os pulsos ao silêncio. 

 Se o vento te derrama 
entre folhas e cinza 
é sempre a mesma voz que não perdoa

 a mesma lei 
 o mesmo labirinto. 







 Armando da Silva Carvalho
 (Foto de Mariam Sitchinava)

sexta-feira, 16 de junho de 2017




Já não sei o que disse e o que disseste:
 o verão desarruma os sentimentos. 








 Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 15 de junho de 2017

tenho errado menos as quedas




quando a última palavra se fechou alguém deve ter apertado
 o gatilho porque o corpo deixou-se ir ao chão despedaçado. 
 permaneceu intacta uma cadeira vazia e foi demasiado. 
 é verdade que tenho errado menos as quedas com que te
 persigo mas a fragilidade é apenas uma distracção do corpo. 
 quem é inteiro não cai.







 Pedro Jordão

quarta-feira, 14 de junho de 2017

terça-feira, 13 de junho de 2017




Sinto que há uma estranha eternidade naquilo que amámos
 e foi destruído 






 Al Berto

segunda-feira, 12 de junho de 2017

segredo




Antes eu não sabia
 porque é que se deve
 - dia após dia – 

 andar sempre em frente
 como se diz até 
o corpo aguentar. 

 Agora sei. 
Se vieres comigo 
digo-te. 







 José Agustín Goytisolo

sábado, 10 de junho de 2017




Hay que salvar al viento 
los pájaros queman el viento
 en los cabellos de la mujer solitaria 
que regresa de la naturaleza
 y teje tormentos 
Hay que salvar al viento





 Alejandra Pizarnik
 (Foto de Laura Makabresku)

 (Obrigada)